O Legado de Oitenta e Cinco Toneladas

DESFILADEIRO DO KHOOMEI
DISTRITO MILITAR DE DIERON
DRACONIS COMBINE
12 JANEIRO 3059

I. O Legado de Oitenta e Cinco Toneladas

O ar rarefeito da baía de carga, saturado com o cheiro metálico de ligas de titânio e o aroma acre de refrigerante recém-adicionado, pesava sobre o Capitão Aleksandr Rossi. Confinado no cockpit pressurizado de seu BattleMaster BLR-1G, uma fortaleza humanoide de oitenta e cinco toneladas, Rossi sentia a imensa gravidade da próxima incursão. Sua máquina de assalto, batizada de Cadmus, era a espinha dorsal da sua Lança de Batalha, um dos raros ‘Mechs de Comando remanescentes daquela era, conferindo a toda a sua força uma ligeira, mas crucial, vantagem tática nas rolagens de Iniciativa.

Ele era um MechWarrior no século 31, uma era onde a vida se revelava barata, mas os BattleMechs não. A empresa mercenária que liderava, as Lâminas de Érebo, estava operando com um fundo de suporte operacional perigosamente esgotado após os reparos recentes; o novo contrato com a Casa Davion – um ataque fulminante e de altíssimo risco contra um nó logístico da Casa Kurita (Draconis Combine) – prometia o capital necessário para a sobrevivência e manutenção da unidade. Rossi sabia que o código mercenário ditava que o lucro calculado era a única verdade soberana, mais vital do que qualquer ideal vazio de “glória” ou “liberdade”.

A introspecção disciplinada era o seu único luxo. Ele ativou o neurocapacete, sentindo o feedback eletromagnético do giroscópio de três toneladas que mantinha sua máquina ereta. Seus anos na cabine haviam forjado um controle da máquina refinado e instintivo, um domínio de sua artilharia e pilotagem que lhe permitia extrair o máximo de precisão em meio ao calor e ao caos. Ele possuía a precisão de tiro afiada por anos de campanha e uma capacidade de comando aguçada, essencial para manter o BattleMaster – uma plataforma projetada para comando e controle – estável enquanto desferia o fogo de suas armas energéticas e balísticas.

A missão era uma afronta direta ao Dragão, o Draconis Combine, uma nação regida pelo implacável Bushido. Um ataque profundo em Dieron, um distrito vital, exigiria não apenas força, mas sutileza para iludir os regimentos de elite, como o Sword of Light.

II. O Confronto Hierárquico e o Rigor Logístico

O Cadmus, com sua blindagem StarGuard IV, era uma montanha de estabilidade na baía. De repente, o murmúrio da manutenção foi rompido pela estática e a voz tensa do Tenente Sato, seu braço direito, ecoou no comunicador, filtrada pela hierarquia militar rígida.

“Capitão Rossi,” a voz formal vibrava com a tensão previsível. “O Sargento Elias persiste em seu protesto. Ele argumenta que o alinhamento de projéteis balísticos para o seu ’Mech de reconhecimento é insuficiente. Ele percebe uma diminuição intencional de seu potencial de fogo, vital para a sobrevivência da unidade.”

Rossi sentiu a pontada da irritação, mas a neutralizou instantaneamente. Gerir MechWarriors temperamentais era um teste de nervos constante. Ele sabia, por experiência sangrenta, que o ego de um MechWarrior de lança de assalto é tão vasto quanto um DropShip. Aqueles homens, forjados em vitórias duramente conquistadas em cem mundos, eram movidos por uma mistura de orgulho e paranoia.

“Tenente Sato,” Rossi respondeu, sua voz grave e controlada, desenrolando-se numa cadência que transmitia autoridade inquestionável. “Reitere ao Sargento que a prioridade logística e tática da companhia é o Canhão de Projeção de Partículas Donal do Cadmus e o suporte de mísseis de longo alcance. A doutrina exige que nosso núcleo de assalto projete seu poder de fogo através das linhas inimigas primeiro. O reabastecimento de projéteis leves é secundário ao poder destrutivo das armas de energia de maior calibre.” O PPC Donal do seu BattleMaster era uma das armas não-balísticas mais poderosas, capaz de perfurar a blindagem inimiga com prótons de alta energia.

Ele continuou, sua frase longa e solene, refletindo o peso do comando: “Explique-lhe que esta não é uma negociação, mas uma ordem operacional baseada na análise de campo. Estamos atuando sob os Direitos de Comando Integrado dos Sóis Federados, e cada unidade deve cumprir o papel designado para que a missão, e o pagamento que garante a manutenção de todos, seja concluída. Mantenha a coerência da Lança de Fogo e ordene silêncio de rádio estrito até o momento exato da ejeção do DropShip.”

III. Resolução Moral e Vingança Histórica

O risco era incalculável. Ele revisou o inventário de armamento do seu BattleMaster: o único PPC Donal, os seis lasers médios Martell no torso e braços. O uso intenso dessas armas de energia sempre trazia o espectro do superaquecimento, que poderia degradar a precisão do sistema de mira e forçar uma perigosa redução na velocidade de Caminhada ou Corrida.

Seu foco não estava apenas nas engrenagens e atuadores do ’Mech, mas no componente humano. MechWarriors de elite eram propensos a ferimentos por quedas, explosões de munição ou calor excessivo.

Ele fechou os olhos, a tensão psicológica aguçada. Mercenários operavam sob a sombra da traição. A memória dos Wolf’s Dragoons – lendários mercenários que foram traídos pela Casa Marik – era uma lição de que o dever não está na bandeira, mas no contrato. Este ataque, visando desabilitar o depósito de germânio Kurita (um elemento vital para a construção e reparo de JumpShips), era o seu compromisso moral: proteger seus homens e o futuro financeiro da unidade. Ele não seria um herói; ele seria um profissional.

“Canal Aberto, Lâminas de Érebo,” Rossi transmitiu, sua voz carregada de gravidade. “O ponto de inflexão se aproxima. O Dragão nos espera. Mantenham o curso e honrem a Lança. Avancem ao som das armas.”

O Cadmus estremeceu, os motores de fusão uivando, enquanto o DropShip iniciava a manobra para lançar a força mercenária contra o coração do território inimigo.

IV. A Ejeção Inelutável: A Composição da Lança de Érebo

O DropShip, uma casca protetora rasgando o veludo da órbita baixa de Dieron, gemia sob a pressão da reentrada. Na cabine do Cadmus, o Capitão Rossi sentiu a vibração final antes da ejeção, um presságio visceral do que estava por vir. Sua Lança de Batalha, a vanguarda das Lâminas de Érebo, era composta por uma mistura de aço pesado e fibra ágil, cada ’MechWarrior sendo um reflexo das escolhas brutais ditadas pela vida mercenária.

Ele acessou o Comando em tempo real, revendo os perfis neurais de seus três subordinados. Mercenários eram o “cartão curinga” do conflito, correndo no “fio da navalha entre a lenda e a destruição”.

Tenente Ryo Sato: O Samurai Sem Mestre Pilotando um Shadow Hawk SHD-2H de cinquenta e cinco toneladas, Sato representava o equilíbrio entre poder e mobilidade, um ’Mech médio de assalto, perfeito para o reconhecimento e o ataque frontal concentrado. Sato era o paradoxo da lança. Vindo de uma família que servira nas forças de linha da Casa Kurita (DCMS), o Tenente havia sido declarado Ronin – um guerreiro sem mestre – após se recusar a executar uma ordem que, em sua visão, feria o verdadeiro espírito do Bushido. Ele foi forçado ao exílio, e agora sua precisão balística afiada e sua habilidade superior de Artilharia serviam à Casa Davion, seus inimigos históricos. Ele estava ali para provar que a honra não estava na bandeira, mas no dever. Rossi sabia que, sob o neurocapacete, Sato carregava não apenas o peso de seu ’Mech, mas o de sua própria traição. O Shadow Hawk, com seus Mísseis de Longo Alcance e o Autocanhão Armstrong J11, era uma extensão de sua busca incessante por redenção.

Sargento Louis Hague: O Fardo da Manutenção Hague, um veterano grisalho de porte físico massivo, tripulava o Warhammer WHM-6D, um ’Mech pesado de setenta toneladas. O Warhammer era um brawler robusto, especializado em suporte de fogo devastador. Ele estava ali pela pura e simples necessidade de capital. Em uma batalha anterior servindo à Liga dos Mundos Livres, seu ’Mech fora avariado até a estrutura interna. A recompensa substancial prometida por Davion era a única esperança de pagar o custo de reparos e rearmamento de seu equipamento. Sua capacidade de comando e experiência em combate próximo (lutador) era lendária, mas sua alma estava desgastada. Hague era um fatalista que já havia se referido a si mesmo e a seus homens como “capim perante a foice”. Sua lealdade era comprada pelo preço de venda de sua máquina de guerra, o único bem que garantia sua sobrevivência.

Sargento Elias “Ghost” Vargas: O Fervor Tático No mais leve dos ’Mechs da lança, o Commando COM-2D de vinte e cinco toneladas, Elias Vargas era todo velocidade e manobrabilidade. O Commando era classificado como um ’Mech Leve, ideal para missões de reconhecimento e escaramuça. Elias era o mais novo e o mais volátil, conhecido por protestar veementemente contra a alocação logística quando sentia que seu poder de fogo (um Laser Médio Martell e tubos de Mísseis de Curto Alcance) era comprometido. Ele veio das fileiras dos Despossuídos – aqueles que perderam tudo nas Guerras de Sucessão e tiveram que conquistar seu lugar na cabine. Essa necessidade implacável de provar seu valor o tornava um MechWarrior agressivo e talentoso, mas com reflexos rápidos, frequentemente compensando a fragilidade da armadura do Commando com uma abordagem temerária ao combate.

    V. O Toque de Midir e a Ruptura do Silêncio

    O cronômetro na interface de Rossi piscava em um vermelho ameaçador. Três. Dois. Um.

    Com um estampido sônico que reverberou pela estrutura do DropShip, o Cadmus foi ejetado, seguido imediatamente pelo Shadow Hawk, o Warhammer e o Commando. A descida controlada através da atmosfera de Dieron foi brutal, mas a experiência forjada em anos de pilotagem garantiu a cada ’MechWarrior o controle de suas máquinas na manobra orbital.

    O solo abaixo era uma paisagem de planícies onduladas, pontilhadas por colinas de ferro-silicato. A neblina que cobria o terreno na aurora era suficiente para comprometer a Linha de Visão (LDV).

    “Lâminas de Érebo, formação ‘Martelo e Bigorna’,” Rossi transmitiu, sua voz retornando à cadência fria de comando. “Sato, Hague, mantenham a posição de fogo de suporte. Elias, movimento de reconhecimento tático na vanguarda. Mantenham a velocidade máxima de caminhada para otimizar o controle de fogo e a estabilidade giroscópica.”

    A tensão se aprofundou quando os sensores de longo alcance do Cadmus, aprimorados por sua natureza de comando, captaram movimento sutil a cerca de três quilômetros – indicativos de uma Lança de Defesa Kurita. Não eram milícia: eram BattleMechs nobres, talvez do regimento Dieron Regulars.

    “Contato visual a Noroeste, Capitão,” Sato relatou, sua voz tensa, mas controlada. “Parecem ser ’Mechs médios. O Dragão nos esperava.”

    Rossi ignorou o comentário. A confirmação da emboscada não era surpresa; a Casa Davion provavelmente a havia orquestrado para atrair as forças Kuritas. A moral da companhia importava mais do que a ética do empregador.

    “Sargento Elias,” Rossi ordenou. “Utilize a movimentação evasiva. Procure por pontos cegos e confirme a composição exata da lança inimiga. Não engaje.”

    “Entendido, Capitão. Movimento rápido iniciado,” Elias respondeu, a excitação juvenil mal contida. O Commando acelerou, usando sua velocidade de corrida para se tornar um alvo mais difícil.

    A confirmação veio um minuto depois. Sato identificou um Phoenix Hawk de reconhecimento (um ’Mech comum, conhecido pela sua velocidade e manobrabilidade) e o que parecia ser um ’Mech de assalto mais lento.

    “Capitão, contato em curso. O elemento de assalto inimigo está mantendo uma distância máxima. Tática clássica de Contenção de Fogo, buscando forçar-nos a um engajamento desvantajoso.”

    Rossi sorriu, uma fina linha no interior escuro do capacete. O BattleMaster foi projetado para comandar o centro do campo de batalha, mas também para quebrar linhas. Sua Warhammer de PPC Donal não era uma arma de contenção.

    “Ajustem a mira. Ordem de engajamento primário: Canhão de Projeção de Partículas Donal,” Rossi decretou. O objetivo era claro: desmoralizar e desestabilizar a formação Kurita com um golpe cinético e térmico que arrancaria grandes pedaços da blindagem.

    O Cadmus plantou suas oitenta e cinco toneladas na terra batida, o giroscópio compensando o movimento mínimo do chassis para garantir a mira precisa do ’MechWarrior. O acúmulo de calor interno era inevitável com o disparo do PPC, mas o risco era calculado.

    Um estrondo sônico seco e prolongado rasgou o ar, o PPC Donal do BattleMaster descarregando uma lança de prótons de alta energia. O tiro, disparado em alcance longo, era uma declaração de guerra pessoal de Aleksandr Rossi ao Dragão.

    A tensão agora era palpável, não apenas o calor físico da cabine, mas a expectativa do impacto. O combate havia começado.

    VI. O Confronto Implacável e o Peso da Reação

    O Canhão de Projeção de Partículas Donal do Cadmus urrou, desferindo sua carga de prótons em um espetáculo de pura termodinâmica destrutiva. O projétil de alta energia rasgou a neblina e a distância, atingindo o torso central de um ’Mech pesado inimigo, possivelmente um Catapult CPLT-C1 ou um Thunderbolt TDR-5SE. O impacto não penetrou, mas vaporizou uma secção maciça da blindagem de liga-carbono, gerando um clarão momentâneo que revelou a composição da Lança de Defesa Kurita: dois ’Mechs médios, um ’Mech pesado e um ’Mech de assalto, posicionados em uma formação tática de contenção.

    “Acerto confirmado no Torso Central do alvo pesado,” Rossi transmitiu, sua voz calma, apesar do acúmulo de calor interno que já fazia os alarmes amarelos piscarem em seu cockpit.

    A resposta Kurita foi imediata e preocupante. Não houve hesitação; a cadência de fogo foi sincronizada com a precisão letal de guerreiros que não lutavam por dinheiro, mas por uma convicção fanática. Mísseis de Curto Alcance (SRMs) e feixes de laser traçaram arcos vermelhos pela névoa.

    “Fogo pesado, Capitão! Direita e Centro!” gritou o Sargento Hague pelo canal, enquanto seu Warhammer WHM-6D era atingido por rajadas no ombro esquerdo. O Warhammer, um brawler com excelência em suporte de fogo devastador, suportou o impacto.

    O Tenente Sato, em seu Shadow Hawk SHD-2H, utilizou sua manobrabilidade para flanquear, mas percebeu que a formação inimiga estava se fechando em um engarrafamento planejado. “Capitão, eles estão nos flanqueando com velocidade de corrida. Estão nos empurrando para a depressão topográfica. É uma tática de cerco, não de defesa.”

    Rossi sentiu o tremor do Cadmus ao absorver um disparo de Autocanhão que atingiu sua perna, diminuindo sutilmente a estabilidade giroscópica da máquina. A dor física era um mero detalhe; a pressão psicológica era o que o esmagava. Ele não podia perder o BattleMaster; uma unidade aleijada (incapaz de se mover) era um alvo fácil para a destruição total.

    Os ’Mechs Kuritas eram profissionais, e a sua composição era uma dor de cabeça: na vanguarda, um Phoenix Hawk ágil (um Skirmisher), flanqueado por um Rifleman RFL-3N de suporte de fogo e antiaéreo e, no centro, o ’Mech pesado que Rossi havia atingido. Mas o que mais inquietava Rossi era a cadência de comando do inimigo – organizada e disciplinada, digna dos Ryuken ou da Sword of Light.

    Elias continuou seu relatório, a voz agora mais controlada: “Capitão, confirmação adicional! Há um outro ‘Mech se aproximando pela retaguarda Kurita. É um Stalker STK-3F de oitenta e cinco toneladas – a mesma classe de peso do Cadmus. Ele está carregando os tubos de mísseis de longo alcance completos. Parece ser o elemento de suporte pesado que estava em reserva!”

    Rossi amaldiçoou internamente. O Stalker era um ‘Mech de assalto devastador, especializado em barragens de mísseis que podiam sobrecarregar qualquer sistema de defesa. Com o Marauder de atirador e agora o Stalker de suporte de mísseis, a emboscada era mais letal do que ele havia calculado.

    “Sargento Elias, qual é a composição do núcleo de assalto?” Rossi exigiu, enquanto preparava seus lasers médios para uma salva total (alpha strike), aceitando a inevitável subida de calor.

    O Commando COM-2D de Elias, usando sua velocidade e reflexos rápidos, evitou por pouco um feixe de laser. “Capitão, um deles não é um Kurita regular! O ’Mech de assalto na retaguarda… é um Marauder MAD-3R! E ele tem uma pintura diferente… Parece que possui habilidade de atirador e está nos mantendo no alcance médio.”

    Rossi cerrou os dentes. Um Marauder de setenta e cinco toneladas, frequentemente usado por atiradores de elite, era a arma perfeita para romper a blindagem de seus ’Mechs. O Dragão, conhecido por aceitar mercenários em suas fileiras, havia contratado uma Lança de Atiradores para reforçar sua defesa.

    VII. O Ponto de Ruptura e o Twist Inesperado

    A estratégia Kurita estava clara: usar a Lança de Defesa para nos empurrar para a zona de alcance ótimo do Marauder. O objetivo não era uma batalha justa; era uma execução tática. Rossi ordenou a Hague que mantivesse a cobertura pesada (utilizando-se da armadura e massa do Warhammer para aguentar a pressão) enquanto Sato e Elias tentavam romper as linhas de visão (LDV) do Rifleman.

    Nesse instante, o rádio do Cadmus irrompeu com estática, não mais filtrada pelo canal tático da Davion, mas em um canal aberto de Comando Integrado, diretamente da fonte inimiga.

    “Lâminas de Érebo,” a voz era feminina, clara, carregada de uma autoridade inquestionável e uma cadência que Rossi reconheceu com um arrepio glacial. “Eu vejo o seu BattleMaster. Eu vejo o Cadmus. Você não é um MechWarrior contratado pelos Sóis Federados, Rossi. Você é o carrasco designado.”

    Rossi paralisou. Sua introspecção disciplinada foi estilhaçada. Ele havia sido desmascarado. O inimigo não estava apenas esperando; o inimigo o conhecia.

    “Quem fala?” Rossi conseguiu balbuciar, quebrando o protocolo mercenário pela primeira vez em anos.

    A risada que veio em resposta era fria, cortante, a voz de uma profissional cuja habilidade de comando e precisão de tiro eram lendárias.

    A tensão no cockpit de Aleksandr Rossi alcançou um ponto de ebulição, a adrenalina competindo com a furiosa percepção da traição. A voz feminina que ecoou em seu canal de comando não pertencia a um mero inimigo; era a voz de uma executor, fria e historicamente pesada.

    O diálogo, carregado de intenção e cinismo profundo, irrompeu:

    “Eu roubei o quê, mercenário? Sua crença na integridade das Casas? Você chegou ao território do Dragão pensando ser a ponta da lança dos Sóis Federados, mas eles já negociaram sua máquina e a vida de seus homens,” a voz continuou, ignorando a pergunta de Rossi. “A traição, Capitão Rossi, não é uma ferramenta tática; é a própria estrutura de ferro e fraude da Esfera Interior. Seu lucro calculado não lhes interessava; eles apenas precisavam de um BattleMaster e seu piloto para o pretexto de um abate. Você foi vendido. Eu sou apenas o martelo contratado. Você não parou na Sombra do Dragão, você foi o bode expiatório que eles empurraram para o meu campo de visão. Agora, cumpra seu último dever. Prepare-se para o juízo final, pois sua fábula mercenária termina aqui, nas mãos das Viúvas Negras.”

    O tom era de gravidade histórica, transformando o conflito pessoal de Rossi em um reflexo da corrupção incessante que derrubou a Star League e forçou o exílio do legado Kerensky. A referência final ao BattleMaster e ao “preço” enfatizou o custo material e a natureza puramente transacional da sua destruição.

    A voz pausou, permitindo que a revelação caísse como um projétil balístico no cockpit de Rossi.

    “Aqui fala a Capitã Kerensky. A Viúva Negra.”

    Rossi sentiu o sangue gelar. Através dos sensores do Cadmus, ele focou no Marauder MAD-3R que Elias havia identificado. Diferente do que normalmente se via nos relatórios de inteligência, a Viúva Negra não estava em seu icônico Warhammer negro. Ela pilotava um Marauder, a máquina frequentemente vista sendo conduzida por Colin Maclaren, seu segundo em comando. A pintura negra com a aranha vermelha na couraça não deixava dúvidas.

    “Vocês foram desviados para a minha janela de salto,” Kerensky continuou. “E hoje, mercenário, eu escolhi uma ferramenta diferente para o seu fim.”

    A Capitã Kerensky, uma mercenária de elite conhecida por sua ferocidade em combate e que já havia servido tanto aos Davion quanto à Casa Kurita (indiretamente, através dos Wolf’s Dragoons que defenderam Luthien para o Combine), estava ali, não por ordem Kurita, mas como uma caçadora contratada pelos Davion – ou, mais provavelmente, por uma facção rival oculta dentro do comando Davion que buscava eliminar Rossi sob o pretexto de uma missão de alto risco.

    Rossi percebeu a amplitude da traição. Seu contrato de Comando Integrado com os Sóis Federados não era uma missão de infiltração, mas uma armadilha, uma operação de bandeira falsa disfarçada de dever e honra, onde ele e seus homens eram os sacrifícios de um jogo político muito maior. Os Kuritas eram apenas os defensores que foram “subornados” (ou manipulados) para manter a lança de Rossi presa no campo, enquanto Kerensky – a verdadeira executora – chegava para destruir o BattleMaster e, junto, a reputação das Lâminas de Érebo.

    O BattleMaster tremeu. Não de dano, mas pela resolução do seu piloto. Rossi não estava lutando contra o Dragão; estava lutando contra a traição inerente à vida mercenária. Ele tinha sido o curinga que se tornou o bode expiatório.

    “Avancem ao som das armas!” Rossi gritou, forçando sua máquina a ignorar o calor e a dor. A luta de agora em diante não era pelo contrato, mas pela sobrevivência e pela vingança.

    VIII. A Agonia do BattleMaster e o Eco do Comando

    A blindagem do Cadmus, outrora impecável, agora parecia um mapa de destroços incandescentes. O Canhão de Projeção de Partículas Donal de Rossi havia cravado uma ferida feia no torso do Marauder MAD-3R de Maclaren [Seção VII], mas o assalto subsequente da Lança de Defesa Kurita e dos Viúvos Negros estava desmantelando as Lâminas de Érebo metodicamente. O alarme de aquecimento uivava na cabine de Rossi, um som agudo que perfurava a neblina da fadiga e da adrenalina.

    O Warhammer WHM-6D do Sargento Hague, um ’Mech conhecido por ser um robusto brawler e pilar de suporte de fogo devastador, cambaleou. Hague gritou uma maldição abafada enquanto um feixe de laser Kurita penetrava o ombro esquerdo de seu ’Mech, destruindo o atuador do braço superior e reduzindo o dano de seus ataques físicos em metade. A máquina estava aleijada, mas não destruída.

    A Capitã Kerensky, em seu Marauder MAD-3R, operava com uma precisão de tiro e habilidade de atirador que transcendia a mera tática; era uma caçada. O Marauder, com seus dois PPCs Magna Hellstar montados nos braços, era a plataforma perfeita para uma executora de elite – setenta e cinco toneladas de morte precisa.

    Rossi não sabia, mas os Wolf’s Dragoons não estavam em Dieron por acaso. A campanha maior dos Dragoons contra as forças Kuritas no Distrito de Dieron havia atraído elementos dispersos de sua força para o sistema, e o Coronel Jaime Wolf mantinha vigilância constante sobre todas as operações de suas subunidades de elite – especialmente as Viúvas Negras. A transmissão de Kerensky pelo canal aberto, revelando sua identidade e intenção de execução, havia sido captada pelo centro de comando móvel dos Dragoons em órbita.

    Enquanto o Marauder de Kerensky e o Rifleman Kurita se realinhavam para desferir o golpe final na estrutura de Rossi, a voz autoritária e inconfundível do Coronel Jaime Wolf rasgou a estática do canal de emergência, uma irrupção de Comando Integrado que silenciou instantaneamente a batalha em torno do Cadmus. A transmissão não vinha do solo, mas do DropShip de comando dos Dragoons em órbita baixa, onde Wolf monitorava as operações de sua unidade no sistema.

    “Capitã Kerensky!” A voz de Wolf ressoou com a autoridade inquestionável que apenas o fundador dos Dragoons possuía. ‘Você vai se manter atrás das linhas até eu dar a segunda ordem à sua companhia. Isso está claro, Capitã Kerensky? O contrato original não incluía execuções públicas. Mantenha a disciplina da unidade.

    O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que o fogo de artilharia. Rossi podia quase sentir a fúria contida de Kerensky através da estática. Houve uma pausa de três segundos – uma eternidade no campo de batalha – antes que a Viúva Negra respondesse, sua voz agora desprovida da ironia anterior, substituída por uma obediência forçada que mal continha a raiva.

    “Senhor. Entendido. Viúvas Negras, desengajem. Formação de retirada tática.” O Marauder de Kerensky baixou os braços armados, os canos dos PPCs Magna Hellstar ainda fumegando, mas manteve a mira travada no Cadmus por um instante a mais do que o necessário – uma promessa silenciosa de que o assunto não estava encerrado.

    IX. O Legado Consumido pelo Fogo

    Rossi sabia que a trégua era efêmera. Kerensky estava presa pelo dever, mas o comando de Wolf só comprava segundos, não a eternidade. Ele havia vindo buscar o lucro calculado [Seção I] e encontrou uma armadilha orquestrada em torno de sua ruína. O contrato com Davion era uma operação de bandeira falsa ; o objetivo era o seu BattleMaster de comando e sua eliminação, com os Kuritas e os Viúvos Negros atuando como executores.

    O Sargento Elias “Ghost” Vargas, em seu Commando COM-2D de vinte e cinco toneladas, o mais rápido e vulnerável, usou o momento para lançar um relatório desesperado: “Capitão, o Shadow Hawk de Sato está abatido. Evasão impossível! O Rifleman está se virando para nos flanquear. Eles vão nos esmagar!”

    O controle da máquina refinado e instintivo de Rossi reassumiu. Sua precisão de tiro afiada por anos de campanha não podia salvá-lo, mas sua massa e moral ainda podiam salvar o resto de sua Lança. Ele havia jurado proteger seus homens.

    “Hague! Elias! Ignorem o objetivo principal! Retirada forçada em velocidade máxima de caminhada! Usem o DropShip como ponto de encontro!” Rossi transmitiu, priorizando a sobrevivência sobre o dever contratual. Ele já havia perdido a metade da força, e a derrota era certa.

    Rossi não podia simplesmente recuar no Cadmus, um BattleMaster de oitenta e cinco toneladas. Sua lentidão seria a morte de seus subordinados. Ele precisava de um ato final que forçasse os Viúvos Negros a desengajar-se.

    Com uma determinação gélida, Rossi acionou o sistema. O acúmulo de calor estava no limite. Ele forçou seu motor a uma sobrecarga, um ato desesperado para extrair a máxima performance da máquina. O objetivo não era atirar, mas sim um ataque físico padrão – o último recurso de um MechWarrior encurralado.

    “Se vou cair, Viúva,” Rossi rosnou para si mesmo, “você vem comigo.”

    O Cadmus avançou em uma corrida pesada, o giroscópio de três toneladas lutando para manter a estabilidade no terreno acidentado. Kerensky, percebendo a intenção suicida de Rossi, disparou os PPCs Magna Hellstar de seu Marauder em uma tentativa de detê-lo, mas o BattleMaster absorveu os impactos no torso frontal, a blindagem vaporizando em cascatas de faíscas.

    Rossi não parou.

    Ignorando os alarmes críticos e a dor que irradiava de seus membros, ele forçou o Cadmus para o contato base a base com o Marauder de Kerensky, engajando um Ataque de Soco desesperado. O braço de oitenta e cinco toneladas de Rossi, impulsionado pelo peso massivo do Cadmus e pelo torque brutal dos atuadores de assalto, era uma arma tão letal quanto qualquer PPC.

    O punho do BattleMaster desferiu um golpe devastador no torso direito do Marauder. A blindagem, mesmo sendo de uma máquina de elite, explodiu em um geiser de faíscas e fragmentos; o golpe penetrou a armadura externa e comprometeu a estrutura interna. O Marauder cambaleou sobre suas pernas articuladas, forçado a recuar para evitar a queda. Rossi havia marcado a Viúva Negra.

    Mas o custo foi terminal.

    Kerensky, mesmo desequilibrada, era uma profissional letal. No momento em que seu Marauder recuperou a estabilidade, ela disparou seus lasers médios à queima-roupa no torso exposto do Cadmus. Simultaneamente, o Rifleman Kurita e o Stalker convergiram seu fogo. Mísseis, lasers e projéteis de autocanhão atingiram o BattleMaster de todos os ângulos. O Stalker despejou sua barragem completa de mísseis de longo alcance; os casulos de mísseis do Cadmus foram perfurados em sequência, criando explosões secundárias que cascatearam pela estrutura interna.

    O alarme de ejeção disparou no cockpit antes mesmo que Rossi pudesse sentir a dor. Seus cintos o arremessaram para fora da cabine em uma explosão de motores a jato, enquanto o Cadmus – sua máquina de assalto que havia sido transformada em sucata – colapsava sob o peso combinado do fogo inimigo.

    Rossi observou, pendurado em seu paraquedas, ignorando os puxões dos tirantes, enquanto seu BattleMaster explodia no chão, uma pira funerária de ferro e fraude. Mas antes de fechar os olhos, ele viu algo que lhe deu uma satisfação amarga: o Marauder de Kerensky, com o torso direito destruído e faíscas saindo da estrutura interna, mancava visivelmente enquanto se afastava do campo. Ele não havia vencido, mas havia deixado sua marca na lenda. A Viúva Negra lembraria do nome Aleksandr Rossi.

    Epílogo: A Moeda Amarga da Sobrevivência

    O silêncio do pós-combate não durou. Um hovercraft da sua lança (o veículo de transporte rápido que Sato usaria para resgate) surgiu gritando na névoa, lançando cascalho e poeira ao parar bruscamente perto da posição de Rossi. Um dos homens de Elias, a armadura de combate rasgada, abriu a escotilha e gesticulou freneticamente.

    “Vamos logo, Capitão! Avançar ao som das armas já terminou para nós!”.

    Rossi se desvencilhou dos tirantes do paraquedas, sentindo o frio do chão e a realidade amarga. Ele havia sobrevivido por quarenta e três segundos a mais do que a última vez em que esteve em uma situação terminal. Mas a sobrevivência custara-lhe o Cadmus, e a honra de sua companhia estava manchada pelo preço de ter sido vendido.

    Dentro do veículo, Rossi encontrou o que restava de sua lança. O Sargento Hague estava caído no banco traseiro, o rosto pálido e suado, o braço esquerdo imobilizado de forma improvisada – ele havia ejetado do Warhammer aleijado segundos antes que a blindagem cedesse completamente. Elias “Ghost” Vargas pilotava o hovercraft com uma competência frenética, seu Commando abandonado a quilômetros de distância após o sistema de propulsão falhar.

    “Sato?” Rossi perguntou, já temendo a resposta.

    Hague balançou a cabeça lentamente. “O Shadow Hawk foi destruído. Ele não ejetou a tempo, Capitão. Os Kuritas o abateram quando tentou cobrir nossa retirada.”

    Rossi fechou os olhos. O custo havia sido maior do que ele imaginara. Ele havia salvado dois de seus três homens, mas o preço incluía não apenas o Cadmus, mas a vida do Tenente Ryo Sato – o ronin que buscava redenção e encontrou apenas o fim de sua jornada.

    No horizonte, os BattleMechs pretos das Viúvas Negras se afastavam, não em triunfo, mas em estrita obediência ao comando de Wolf. A vingança de Kerensky havia sido interrompida, mas a traição, essa força inerente à vida mercenária, havia sido confirmada.

    Ele era um homem que havia perdido sua lenda. Agora, ele tinha apenas o dever de reconstruir a partir das cinzas, um ronin forçado a negociar sua própria sobrevivência no inferno de uma Esfera Interior onde a vida é barata, mas BattleMechs não.

    Conto

    O Último da Guarda

    Parte I: O Ponto de Ruptura O cheiro de ozônio queimado e fumaça ácida do combustível de fusão era o único ar que restava para o Tenente Kellen Roric. Dentro da cabine apertada do seu BattleMech Valkyrie, o silêncio no canal de comando era tão sufocante quanto a fumaça que entrava pela ventilação quebrada. A […]

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    Conto

    O Voo da Cigarrinha

    Parte 1: O Fardo de Bergan O cockpit era apertado. Kael podia tocar os anteparos opostos com os braços estendidos, e a promessa de liberdade em pilotar um BattleMech leve e rápido se esvaía a cada hora de patrulha. O calor da tarde, mesmo filtrado pelos sistemas de vida da cabine, cozinhava o ar. O […]

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    GARGANTA DE SOTER

    GARGANTAS DE SOTER ASTRAEA IXPERIFERIA RIMWARD 19 DE JUNHO 3030 11:30H PARTE I: Lança Sombra de Ferro O ar rarefeito de Astraea IX chicoteava contra a blindagem do Marauder MAD-3R, fazendo a fuselagem de 75 toneladas vibrar ligeiramente. Dentro do cockpit quente, o Capitão Silas Vance, conhecido pelo codinome “Sentinel,” ajustou o neurocapacete. Ele sentia […]

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